Rubem
Fonseca inaugurou uma nova corrente na literatura brasileira contemporânea que
ficou conhecida, em 1975 através de Alfredo Bosi, como brutalista. Em
seus contos e romances utiliza-se de uma maneira de narrar na qual destacam-se
personagens que são ao mesmo tempo narradores. Várias das suas histórias (em
especial, os romances) são apresentadas sob a estrutura de uma narrativa policial
com fortes elementos de oralidade. O fato de ter atuado como advogado,
aprendido medicina legal, bem como ter sido comissário de polícia, nos anos
50 no subúrbio do Rio de Janeiro teria contribuído para o escritor compor histórias
do submundo dentro dessa linguagem direta. Muito provavelmente devido
a isso, vários dos personagens principais em sua obra são (ou foram) delegados,
inspetores, detetives particulares, advogados criminalistas, ou, ainda, escritores.
Além
do tom nitidamente policialesco, em que há geralmente um crime ou um mistério
a ser desvendado, sua obra pode ser vista como uma paródia do gênero policial
tradicional, visto que os crimes atuam apenas como um disfarce de suas críticas
a uma sociedade opressora do indivíduo. No gênero policial tradicional o mistério
funciona como uma casca que encerra um caroço; ali a “morte não é nada. O assassinato
não é nada. O que transtorna é a selvageria do crime, porque ela parece inexplicável”
(Boileau e Narcejac, 1991: 11). A Rubem Fonseca – mais do que simplesmente
deslindar o ato criminoso – interessa registrar o cotidiano terrível das grandes
cidades e, simultaneamente, por a nu os dramas humanos desencadeados pelas ações
transgressoras da ordem.
Persistem,
apesar disso, algumas semelhanças entre literaturas como a de Sir Arthur Conan
Doyle (criador de Sherlock Holmes), que se insere nos parâmetros tradicionais
do gênero, e a de Rubem Fonseca. Em ambos os autores, o enigma inicial fica
por conta de um crime brutal (geralmente um homicídio) que gera toda uma atmosfera
de mistério e tensão no romance e fará com que o leitor não desgrude os olhos
de suas páginas antes do desenlace. Ainda podemos notar semelhança na maneira
como se iniciam as investigações, isto é, o primeiro passo seja do investigador
genial (Sherlock Holmes) ou do investigador comum (Mandrake, Guedes, Mattos,
etc.), que será a visita ao local do crime em busca dos primeiros indícios que
nortearão o processo investigativo. Além disso, encontramos outros exemplos
quase irrelevantes do ponto de vista da comparação que estamos estabelecendo,
mas que sugerem alguma semelhança, como a relação entre Mandrake e Wexler, em
A grande arte (1983), e Sherlock e Watson como companheiros para
solucionar crimes.
As
diferenças, porém, são mais fascinantes. Enquanto no gênero policial tradicional
temos, segundo Pierre Boileau e Tomas Narcejac (1991), um investigador portador
da graça metafísica e guiado pelo pensamento positivista, em Rubem Fonseca
há um investigador simples, que, ao mesmo tempo, não é como a “máquina de pensar”
de Poe ou Doyle e nem como “intuição demolidora” de Hammet ou Chandler (Boileau
e Narcejac, 1991), escritores da literatura conhecida como noir. Num
mundo sujo e infame, onde a moral e a ética foram dissolvidas, onde o vilão
e o mocinho desaparecem, estas personagens erguem um protesto quase solitário
(senão romântico) contra esta realidade que, apesar de tudo – ao contrário do
romance policial tradicional – continuará suja e infame, seja o criminoso eliminado
ou não. Os tempos são outros e os leitores que se aventuram por alguns dos romances
policiais contemporâneos em busca de detetives com cara de herói, correm sério
risco de abandonar o livro antes do final.
Rubem
Fonseca é pródigo em deixar as coisas para o leitor completar. Ao escrever,
o autor deve supor um interlocutor inteligente, culto, atento. Com uma inesgotável
amplitude de experiências e observações, tornou-se capaz de escrever com a mesma
verossimilhança sobre halterofilistas e executivos, marginais e financistas,
delegados de polícia e assassinos profissionais, garotas de programa e pobres
diabos que vagam sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro. Tem, pois, como matéria-prima
os dois extremos da nação: os que vivem à margem do sistema e os que constituem
o núcleo privilegiado do mesmo.
O
que mais choca nos romances e contos de Rubem Fonseca é o amoralismo dos bandidos.
Em nenhum momento eles são atormentados por qualquer remorso ou culpa. São perversos
e frios, venham dos estratos superiores ou das camadas populares. As cidades
parecem vazias de inquietação ética, a não ser por alguns indivíduos que, em
meio ao horror, agem movidos por um sentimento qualquer de justiça. A relação
entre “mocinho” e “bandido” está presente em suas obras, contudo não nos é possível
identificar exatamente quem é um e quem é o outro, pois há uma grande transitividade
entre ambos fazendo com que, por exemplo, Wexler suponha que o criminoso em
A grande arte seja, até mesmo o próprio Mandrake: “Pode ter sido
qualquer pessoa. Pode ter sido você, Mandrake.” (Fonseca, 1983: 296).
Não obstante
as mais variadas combinações de “mocinho” & “bandido” nas personagens de
Rubem Fonseca, vemos n’O caso Morel (1973) o ex-delegado e escritor
Vilela & Morel; o criminalista Mandrake & Lima Prado/ Ajax ou Carmilo
Fuentes, em A grande arte (1983); o detetive Guedes & Eugênio
Delamare, em Bufo & Spallanzani (1985); o comissário Mattos
& “O Anjo Negro” ou Fortunato, em Agosto (1990); e, para completarmos
as obras aqui analisadas, Mandrake & Gustavo Flávio, em E
do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (1997).
Estes investigadores, inabaláveis na sua força motriz, trazem com certeza o
espírito da literatura noir, desenvolvida e aperfeiçoada pelos escritores
Hammet e Chandler, apesar de nem sempre se utilizarem dos mesmos meios para
a solução dos crimes.
Um dos
temas dominantes na obra de Rubem Fonseca é a violência que percorre as ruas
brasileiras, numa espécie de guerra civil não declarada. Certas passagens de
contos ou narrativas longas, como é o caso do romance A grande arte
(1983) apresentam uma brutalidade tão meticulosamente narrada que se tornam
leitura quase insuportável para os espíritos delicados. Esse romance
tem um enredo complexo: o enigma inicial se dá através de um assassino frio
que desenha, com uma faca, uma letra “P” no rosto de cada vítima. Mas esse
não é o único crime que o leitor deverá descobrir em parceria com Mandrake e
Wexler. Muitos outros assassinatos, sem nenhum “P” desenhado no rosto das vítimas,
começam a acontecer. No entanto, nessa obra, a chave central dos enigmas é o
esclarecimento do que está por detrás do conglomerado Aquiles, misto de banco,
financeira, entreposto de contrabando, agência de corrupção, etc.
Algo intrigante em
suas obras é condição existencial de suas personagens, sempre dominadas por
uma atmosfera de violência latente. Mas, de onde virá a inspiração para a composição
das misérias humanas das personagens de romances e contos de Rubem Fonseca,
já que a condição humana e a violência neles formam um retrato que, a princípio,
só foi proposto para a sociedade brasileira pelo próprio autor? Sua obra contém
o retrato de uma violência diferenciada das obras literárias escritas, até então,
no Brasil. O autor revela os primórdios de uma violência que se pulveriza em
nossa sociedade nos dias de hoje, devido ao aumento das contradições sociais,
sobretudo nos grandes centros urbanos do Brasil, a partir da década de 70.
Isso não nos pode induzir a ver o autor
como um mero retratista da violência urbana que assola o país. Sua obra apresenta
maiores sutilezas, temas mais complexos e ricos, como a solidão dos indivíduos
nas grandes metrópoles. A maioria de seus protagonistas vive opressa, aturdida
pela sensação de isolamento e de vácuo na alma – reside nesse ponto uma outra
forma de violência, a violência do indivíduo contra si, contra os outros por
sua condição e de outros contra esse indivíduo solitário. A abundância de possibilidades
eróticas oferecidas pelas cidades dá a suas personagens a obsessão sexual como
única alternativa ao vazio da existência, como se na satisfação física do desejo
residisse a última certeza de que ainda se está vivo. Essa sensação de isolamento
está muito presente em todas as suas obras como, por exemplo, os romances Agosto
(1990) e E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto
(1997).
Agosto (1990), obra que, apesar de fictícia,
tem sua origem na história do Brasil, apresenta vários crimes que acontecem
ao mesmo tempo e cujo clímax fica por conta do suicídio de Getúlio Vargas, que
interfere muito na vida do comissário Mattos. Mattos é uma dessas personagens
que tem no individualismo a marca de sua condição existencial. Podemos sugerir
aqui a presença do próprio autor – executivo da empresa Light durante
a década de 60, homem de ação e ativista político –, que participou ativamente
do movimento que culminou no golpe de 64, mostrando, tal qual a personagem Mattos,
sua crença em certos valores capitalistas como o individualismo que se
realiza através da liberdade.
E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (1997) é, entre os estudados, seu
romance mais atual. Nessa obra, Rubem Fonseca apresenta o escritor Gustavo Flávio
que já fora sua personagem em Bufo & Spallanzani (1985), e
também o criminalista Mandrake d’A grande arte (1983). Gustavo
Flávio é, dessa vez, relacionado com outro crime e, talvez por seu “curriculum”
(em Bufo & Spallanzani esteve relacionado com a morte de Delfina
Delamare), seja o principal suspeito até mesmo para sua nova companheira. Mandrake
é quem irá trabalhar no caso e tentar desvendar o crime. Assim como Mattos (Agosto,
1990), a condição existencial que marca a vida de Gustavo Flávio é o individualismo.
Ele se sente isolado, porém quer sentir-se isolado, e por não gostar
que ninguém mexa em suas coisas, faz com que acreditem estar escondendo algo.
Uma
outra forma de violência que está presente nas obras de Rubem Fonseca, é a violência
do autor contra o leitor. Através da análise das relações entre violência e
linguagem, podemos sentir a hostilidade no contato com o leitor. Esta hostilidade
se traduz pela violência discursiva, tanto através de expedientes formais (estilo
seco e entrecortado, frases curtas), como através dos recursos de conteúdo,
nas situações-limite em que envolve as personagens. Supondo que a linguagem
em geral tem escondido o que justamente importa revelar, Rubem Fonseca propõe
o inverso: da “matéria bruta” concernente à realidade para a sua representação
na narrativa, uma série de desmistificações se faz necessárias, e na base delas
está, sobretudo, a desmistificação da linguagem. A linguagem violenta tem uma
função definida frente ao seu leitor: a de presentificar a violência de modo
a que ele não tenha mais condições de questioná-la. Entretanto, somos acostumados
a abrandar, através de mecanismos vários (como o silêncio, por exemplo), o efeito
do que tem que ser dito pelo modo de o dizer, ficamos surpresos
diante de uma linguagem tão avessa a atenuações.
Além das várias formas
de violência e da solidão dos indivíduos nas grandes metrópoles, há um outro
tema a ser abordado por quem se pretende a estudar as obras de Rubem Fonseca:
o erotismo. Aqui vemos também a ironia e a pornografia utilizadas pelo autor
para compor suas obras e suas críticas a uma sociedade que oprime, isola e maltrata
seus indivíduos, especialmente – pela biografia desse autor – na cidade do Rio
de Janeiro.
Os temas apontados como próprios de Rubem Fonseca apontam
para o embate dos valores humanos que coexistem na grande cidade, onde a uma
mitologia urbana imposta socialmente surge em contrapartida a convergência de
cenas avassaladoras de sexo e violência. A perspectiva extremista indicia a
desmistificação, o desmascaramento dos mitos sob os quais o homem urbano tenta
sobreviver, e revela sobretudo que a tensão entre o real e o ideal se dá, no
limite, através do pequeno liame que separa a vida da morte. (Maretti, 1986:
22)
Se pudermos considerar,
com Georges Bataille, que o erotismo “é a aprovação da vida até na própria morte”
(Bataille, 1980: 13), então esse encanto pela morte, revelado sobretudo na passagem
da atitude normal à do desejo, é a manifestação culminante da nostalgia da continuidade
do ser, ao colocar repentinamente em questão a vida descontínua (do trabalho
e da razão). Então a “aprovação da vida na própria morte” configura-se como
um desafio, por indiferença, à própria morte. Por acreditar que o erotismo está
na base da condição humana é que Rubem Fonseca o tematiza em sua literatura
e o abraça em todas as suas manifestações.
Podemos
notar manifestações claras do poder do erotismo em Rubem Fonseca n’O caso
Morel (1973), em que Paul Morel (artista de vanguarda, famoso e excêntrico),
acusado pelo assassinato de Joana, conta a história de sua vida a Vilela (ex-delegado
e, atualmente, escritor) por meio de personagens fictícias. Enquanto Morel busca
em Vilela conselhos para o livro que pretende escrever, Vilela mira-se em Morel
enxergando em seu caso os contornos de seu próprio destino. Por meio dessa história
recheada de erotismo, hedonismo, pornografia, arte e morte, o delegado Matos
espera descobrir o verdadeiro culpado de um crime bárbaro do qual Morel é o
principal suspeito.
Outro
romance que traz a erotização de suas personagens como afirmação da vida é Bufo
& Spallanzani (1985). Rubem Fonseca mostra sua intenção desde a
escolha do título da obra: Spallanzani foi um cientista italiano que estudou
o instinto de preservação da espécie entre os sapos, mais especificamente no
Bufo; seus estudos comprovaram que, mesmo com as duas patas de trás carbonizadas,
o macho não abandonava a fêmea com a qual estava copulando. Além do título,
o início do primeiro capítulo de seu romance (“Foutre ton encrier”),
apresenta uma carta de Gustavo Flávio a uma de suas namoradas, Minolta: “Você
fez de mim um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de permanecer agarrado
às suas costas, como Bufo, e, como ele, poderia ter minha perna carbonizada
sem perder essa obsessão” (Fonseca, 1985: 07). Essa obsessão sexual que a própria
personagem deixa clara desde o princípio permeará toda a obra.
Apesar de ter participado
ativamente do golpe de 64, Rubem Fonseca foi censurado posteriormente, em 1975,
com o livro de contos Feliz Ano Novo por motivos que ainda permanecem
obscuros. Mas ele não desistiu de suas críticas e suas obras alcançaram e continuam
alcançando cada vez mais leitores. Dessa forma, numa atitude – apontada por
François Warin – semelhante à de Nietzsche, Artaud e Bataille, Rubem Fonseca
também objetiva a desmistificação, no sentido de “reabrir a arte à vida, enraizá-la
no corpo, desublimar a cultura, denunciando os julgamentos demasiado virtuosos
que a justificam” (Warin, 1974: 03). E sem qualquer abrandamento.












