Rubem Fonseca vence prêmio literário em Portugal. nº15

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Principais Obras


Obras principais:Contos: Os prisioneiros (1963); A coleira do cão (1965); Lúcia McCartney (1970); Feliz ano novo (1975); O cobrador (1980);Buraco na parede (1993); A confraria dos espadas (1998); Secreções, excreções e desatinos (2001); Pequenas criaturas (2002)RomancesO caso Morel (1973); A grande arte (1983); Buffo e Spalanzanni (1985); Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988); Agosto (1990).
NovelaDo meio do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto (1997)
Sua carreira iniciou-se pelo conto. Ao lado de Dalton Trevisan, ajudou a revolucionar a história curta no país. Desde o seu livro de estréia apresentou um texto despojado, áspero, na trilha que remonta à ficção americana contemporânea, em especial a Hemingway, a Raymond Chandler e a Dashiel Hammet. Como nenhum outro escritor brasileiro das últimas décadas do século XX, conseguiu registrar a vida urbana moderna naquilo que ela tem de inesperado, pungente e assustador.
Com uma inesgotável amplitude de experiências e observações, tornou-se capaz de escrever com a mesma verossimilhança sobre halterofilistas e executivos, marginais e financistas, delegados de polícia e assassinos profissionais, garotas de programa e pobres diabos que vagam sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro. Tem, pois, como matéria-prima os dois extremos da nação: os que vivem à margem do sistema e os que constituem o núcleo privilegiado do mesmo.
Várias de suas histórias (em especial, os romances) são apresentadas sob a estrutura de uma narrativa policial. Há um crime ou um mistério a ser desvendado. Por isso muitos dos personagens principais em sua obra são delegados, inspetores, detetives particulares ou ainda advogados criminalistas. Para Rubem Fonseca, mais do que deslindar o ato criminoso, interessa registrar o cotidiano terrível das grandes cidades e, simultaneamente, por a nu os dramas humanos desencadeados pelas ações transgressoras da ordem.
Um mundo violentoUm dos temas dominantes de seus contos e romances é a violência*que percorre as ruas brasileiras, numa espécie de guerra civil não declarada. Às vezes esta violência brota das circunstâncias sociais. Outras vezes ela emerge de pulsões subterrâneas dos indivíduos que experimentam o fascínio do mal, independentemente da classe a qual pertencem. Certas passagens de contos como Feliz ano novo, Passeio noturno e O cobrador, e da narrativa longa A grande arte apresentam uma brutalidade tão meticulosamente narrada que se tornam leitura quase insuportável para espíritos delicados. Veja-se esta passagem deFeliz ano novo:
Podem comer e beber à vontade, ele disse.Filho da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. .Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.Como é seu nome?Maurício, ele disse.Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros que estavam quietos, apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?Ele se encostou na parede.Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mias um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, disse Zequinha.O que mais choca é o amoralismo dos bandidos. Em nenhum momento eles são atormentados por qualquer remorso, qualquer culpa. São perversos e frios, venham das camadas populares ou dos estratos superiores. As cidades parecem vazias de inquietação ética, a não ser por alguns indivíduos que, em meio ao horror, agem movidos por um sentimento qualquer de justiça, como o criminalista Mandrake, em A grande arte, o delegado Vilela, em A coleira do cão, e o comissário Mattos, em Agosto. Estes personagens, inabaláveis na sua força motriz, trazem com certeza o espírito da literatura noir, desenvolvida e aperfeiçoada pelos escritores Hammet e Chandler. Neste estilo, sai de cena a dedução brilhante de protagonista como Sherlock Holmes e Poirot e entra a figura do detetive capaz de dar murros, de arrancar confissões de personagens que transitam entre o bem e o mal com muita fluidez. Num mundo sujo e infame, onde a moral e a ética foram dissolvidas, onde o vilão e o mocinho desaparecem, estes personagens erguem um protesto quase solitário (senão romântico) contra esta realidade que apesar de tudo – ao contrário do romance policial clássico – continuará suja e infame, seja o criminoso eliminado ou não.                                                              

Matheus Lohan nº: 28

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